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13 outubro, 2012


                                   

MANUAL DAS INCOERÊNCIAS

Sou incoerente! Levei um susto quando percebi essa minha faceta. Pensei e ponderei. Descobri que somos incoerentes e egoístas quando se trata das nossas vontades e necessidades. Reclamamos quando algo dá errado e nem percebemos que errado é tudo que não corresponde às nossas expectativas. Nem consideramos a hipótese de que pode ser o certo para alguém, alem de nós. E geralmente é.
Dizem:  “Deus escreve certo por linhas tortas”. Quem nunca ouviu? "Vox Populi Vox Dei". Sempre detestei clichês e olha eu aqui citando um após outro...que ironia! O fato é que comecei a respeitá-los. Comecei a observar o quanto nossas incoerências nos deixam cegos. E o resultado foi esse pequeno Manual. 
Podemos começar dizendo que...
                      

Não tem nada mais irritante do que...


...alguém do seu lado atender um celular e você ser obrigado a ouvir toda a conversa, inclusive a fala de quem está do outro lado da ligação...
...você atender o celular e ter alguém do seu lado ouvindo tudo, inclusive a fala de quem está do outro lado da ligação... 
 
...procurar a chave de casa, dentro da bolsa (só para mulheres)...
...encontrar a chave, na primeira enfiada de mão  e descobrir que pegou a chave errada... 

...tentar achar o celular dentro da bolsa, antes que pare de tocar (só para mulheres)...
...encontrar o celular a tempo de atender uma chamada e do outro lado alguém dizer “oi Beth” e o seu nome é Regina... 

...dar de cara com o (a) ex e ele (a) fazer de conta que não te conhece...
...dar de cara com o (a) ex e ele (a) te abraçar e te beijar como se fossem velhos amigos... 

...o telefone tocar na hora em que você está fritando o seu jantar...
...esperar o telefone tocar e ele continuar mudo, mudo, mudo... 

...encontrar migalhas de pão no pote de manteiga...
...cortar o pão, encher a mesa de migalhas e descobrir que a manteiga acabou...

...alguém ficar te pegando, cutucando, falando com você a menos de 5 centímetros de distância,  enquanto bate papo...
...aquele gato que você quer conquistar, dar um oi, acenando, do outro lado da avenida... 

...depois de todos os ingredientes estarem misturados na tigela, você descobre que falta um e não tem em casa...
...fazer aquela receita fabulosa, que acabou com a dúzia de ovos que estava na geladeira, e o resultado ficar intragável... 

...descobrir que está falando sozinho, há mais de meia hora, porque a ligação caiu e você não percebeu...
...ter de ouvir sua melhor amiga, se lamentando porque o namorado a deixou (todo mundo já esperava por isso). Se pelo menos, a ligação caísse... 

..sair de casa com botas de camurça e começar a chover...
...não ter uma bota de camurça, que está na última moda... 

...alguém te ceder o banco no ônibus, quando você tem só 30 anos, e ainda dizer “senhora, senta aqui”... 
...ninguém ter a delicadeza de ceder o banco no ônibus, quando você tá podre de cansada... 

...ouvir um “fica calma, relaxa!” quando você está no auge da irritação!...
...ninguém te dizer uma palavra de consolo quando você mais precisa... 

...assistir um filme de 3 horas e no final perceber que não entendeu patavina...
...não ter nenhum filme prá assistir quando tem de ficar em casa porque tá sem grana prá sair...

...encontrar a conta de luz, perdida, no dia seguinte ao vencimento...
...não encontrar a conta de luz e ter de pedir segunda via pela Internet... 

...precisar daquele documento que você guardou por 10 anos e descobrir que  jogou fora no último  surto de triagem na papelada, há apenas 2 dias...
...finalmente precisar daquele documento guardado por 10 anos, que você não jogou fora no último surto de triagem da papelada, ver que era cópia de fax e as letras sumiram... 

...visitar alguém que tem um tapete na porta dizendo “Seja bem-vindo mas limpe os pés”...
...receber uma visita, com os sapatos sujos de lama, depois de um dia inteiro limpando a casa...

...sininhos de vento, quando está ventando...
...sininhos de vento que ficam mudos porque não tem vento... 

...barulho (qualquer um) quando você quer silêncio...
...silêncio, quando você quer barulho (qualquer um)... 

...prestar um concurso público, ficar em terceiro lugar e só ter 2 vagas...
...ser aprovada em concurso público e ser chamada depois de ter arrumado um emprego muito melhor, na iniciativa privada... 

...teu chefe te mandar ao banco e chegando lá ter 30 pessoas na sua frente...
...com a senha de número 31 na bolsa, você sair prá tomar um café e na volta descobrir que seu número já foi chamado... 

...ter de escolher entre fazer um xixi ou perder o ônibus para o trabalho...
...escolher pegar o ônibus, chegar no ponto e esperar 25 minutos porque o ônibus está atrasado...

...alguém com  fones enfiados no ouvido, cara de paisagem, cantarolando uma música que você não ouve...
...descobrir que você tem 5 horas de viagem pela frente, ouvindo uma conversa chata com o cidadão ao seu lado... 

...ligar seu computador e ver que sua caixa de mensagens está vazia...
...ligar seu computador e ver que sua caixa de mensagens está abarrotada de PPS melosos... 

...acordar cedo e descobrir que não precisa ir trabalhar porque é feriado...
...dormir até tarde, porque é feriado, e lembrar que  devia acordar mais cedo para fazer seu mercado do mês... 

...encontrar aquela pessoa, que fala pelos cotovelos, e nunca deixa você falar...
...encontrar aquela pessoa, que fala pelos cotovelos, e ela te ignorar... 

...ter uma ideia original sobre um determinado assunto e não conseguir anotá-la por falta de papel e caneta...
...conseguir escrever sua ideia original e descobrir que já foi colocada em prática por 38 pessoas que tiveram a mesma ideia original... 
 
...ir ao cabeleireiro, amansar o rebelde e sair do salão com uma garoa persistente, sem guarda chuva...
... ir ao cabeleireiro, amansar o rebelde e ninguém te chamar para um programa... 

...organizar um programa para seus 10 melhores amigos, no único espaço disponível - sua varanda de frente para o mar. Começar a chover e todos se amontoarem na minúscula sala do seu apê...
 ...organizar um programa para seus 10 melhores amigos, no único espaço disponível - sua varanda de frente para o mar. Começar a chover, você recolher tudo, transferir o programa para a sala, e ninguém aparecer por causa da chuva ...
 
Sonia Rocha – Mercuriana 

12 outubro, 2012


De dentro prá fora


Outro dia recebi uma dessas mensagens que circulam pela Internet dizendo “ A boca fala do que o coração está cheio” ilustrada com muitos coraçõezinhos saindo de uma boca. Evidente que a mensagem queria dizer que do coração só sai sentimento bom.
Aí me peguei pensando que, na verdade, só sai o que está dentro, seja do coração, cérebro ou outro órgão qualquer. E nem sempre é coisa boa. Mas vou me ater à ideia inicial, cuja conotação se refere aos sentimentos. Lembrei-me de uma amiga que se manteve, durante anos, num casamento com um marido alcoólatra (ou alcoólico, como preferem atualmente). No ápice das crises, era surrada verbalmente, ouvia queixas, acusações, cobranças e, como parte do jogo, replicava, se defendia, atacava. Ao final da crise, passado o efeito do álcool, ambos faziam o “mea-culpa”, alegando que não estavam em seus estados normais. Não estavam e nem poderiam, mas tudo que saiu de suas bocas estava dentro, em algum lugar, armazenado, estocado. Dados salvados para uso quando fossem necessários. Por isso não acredito nessas desculpas esfarrapadas:
" eu bebi...eu perdi a noção...foi sem querer, etc.."
Sei de muitos casos assim. Entre pessoas que compartilham um relacionamento, seja amoroso, profissional, de amizade, familiar. As discordâncias levam as pessoas a guardarem para uso futuro, as frustrações, as broncas caladas, os sapos engolidos.
E assim é para evitar confrontos com as pessoas que amamos. Deixar passar é se iludir. É achar que o esquecimento apaga o sentimento. Nem uma coisa nem outra. Pessoas feridas não esquecem e sentimento não se desmancha no ar.
O que entra estragado é munição que só vai servir para contra-atacar naquela hora imprópria, quando o álcool libera o superego ou o pote-está-até-aqui-de-mágoa.
A minha amiga e seu companheiro buscaram ajuda profissional e hoje vivem um dia após o outro tentando sincronizar os passos. As ofensas verbais foram substituídas por conversas francas, escancaradas, quando cada um fala do que não está bem. Não existe um céu de brigadeiro mas, pelo menos, a lixeira é esvaziada assim que o lixo é depositado. É difícil, porém necessário. Mesmo porque amar não significa gostar de tudo, aprovar tudo que o outro nos dá. Assim como é possível gostar sem amar, também é possível amar sem gostar. Que fique claro, amamos a pessoa mas não gostamos de algumas de suas atitudes. E isso tem de ser falado. Ninguém, seja lá quem for, tem a obrigação de nos adivinhar. Talvez isso explique o porquê  nossa fúria, descontentamento e raivas, recaiam sempre sobre os nossos queridos.
Quando nossas diferenças batem de frente com quem não nos interessa, botamos a boca no mundo e extravasamos, deixamos sair tudo que está dentro. Não guardamos. Damos de ombros e saímos andando, nos sentindo mais leves e, geralmente, de alma lavada.
Sonia Rocha – Mercuriana

11 outubro, 2010

Solidão e Internet

Há quem diga que a solidão é péssima companhia. Concordo.
Outros acham que a solidão é necessária para crescermos. Concordo.
“Solidão? Não existe. Nunca estamos sós”. Concordo.
“Antes só do que mal acompanhado”. Concordo.
“Antes mal acompanhado do que só”. Concordo.
Blá...blá...blá.... Concordo.
Como podem ver, sou uma pessoa cordata.
Na verdade, aceitar tudo que se fala sobre solidão, me transformou. Hoje tento aceitar a verdade de cada um, sem discordar. Porém, mantenho a minha sob sigilo porque não tenho mais paciência nem vontade de me expor. O que penso, guardo.
Meu sonho acalentado era uma máquina de escrever sobre uma mesa embaixo de uma janela aberta para o oceano. Passaria os dias catando as letras, transformando-as em palavras e costurando idéias.  Olhando a cor do mar para adivinhar a cor do céu. Cinzento, azul, branco, vermelho. Queria criar histórias. Traduzir minhas fantasias em linguagem compreensível.  
A máquina do tempo modificou alguns detalhes. Hoje compartilho todos os meus momentos com  meu editor de texto e com as palavras que digito. Eu, meu teclado, meu monitor e um emaranhado de cabos e fios que teimam em me chamar à razão quando resolvem me desconectar  do mundo lá fora.
É verdade que  conheço uma grande variedade de pessoas através da telinha. Mas, quando o corpo cansado e dolorido por tanto tempo sentada  me faz apertar o botão off, o vazio se instala...e a solidão me invade.
Assim é a Internet.
Um mundo virtual que, raramente nos transporta para um mundo real.
Conheço casos de amizades e amores conquistados e vivenciados a partir de encontros virtuais. Mas é raro, considerando-se a proporção das desilusões. Basta ver sua lista de “amigos”. Com quantos você mantém contato? Veja seu MSN, seu Orkut, seu Badoo, seu Facebook...e outros que eu desconheço...quantas pessoas estão lá e com quantas  você fala ou manda uma mensagem pessoal? Na maioria das vezes, recebe um arquivo repassado, sem nome de destinatário e, quase automaticamente, faz o mesmo, repassando para todos...
Se isso não é solidão...então não sei mais o que é.
Mercuriana - Sonia Rocha


29 julho, 2010

Quando o escuro fica claro

O autor desse texto é Luiz Alca de Sant'ana. Sou sua fã e quero convidar a todos que façam uma visita ao seu site. Tenho certeza que irão gostar. 
  
"Em tudo na vida aos poucos o escuro fica claro. Eis então a arte de viver: o aprendizado de se gastar o tempo de forma inteligente quenos permitindo os esclarecimentos pouco a pouco, captando uma lição especial: o conhecer modifica o conhecido. Aquilo em que pensamos hoje, em nome das alterações circunstanciais, podemos não pensar amanhã. Algo que hoje é ponto fechado, quem sabe, se abrirá numa próxima etapa da jornada. O que parece insolúvel, agora, se resolverá amanhã. Até porque, o homem é sempre maior do que as circunstâncias. Elas passam, ele segue. E quando a gente vai tendo essa noção, sem que com isso nos arrastemos na desilusão e na depressividade, diante de uma perda, de um golpe, de uma separação, de uma injustiça, sabemos que é preciso dar um tempo. Não, necessariamente, para que se volte ao estágio anterior, mas para que venha a compreensãoem alguns casos, retorne a alegria em outros ou se passe a lutar pelo que realmente vale a pena. O problema é que somos apressados, queremos tudo para ontem, forçamos nosso físico, nossa mente e, as vezes, nossa alma a brigar pelo que ainda é nebuloso. Como na natureza, tudo tem seu tempo. Ao encontrarmos uma floresta, em princípio, não captamos seus mistérios; mas, pouco a pouco, vamos descobrindo o que dizem os pássaros em seu canto, a voz do vento e o movimento das folhas nas árvores, assim como todo o traçado do caminho." 

Luiz Alca de Sant'ana  
http://www.luizalca.pro.br/index.php  

postado por Sonia Rocha
 Mercuriana

07 junho, 2010

FIQUEI SEXY...genária!

No último dia 30 estreei idade, porque mulher madura não faz aniversário, estréia idade. Li isso num texto que recebi de uma amiga e achei o máximo.
 Entrei para o time da “Melhoridade, Terceira Idade, Segunda Infância, Melhorescência”, ou seja lá o nome que se dá ao grupo que, na verdade, ingressou na reta final.
Não passei por nenhuma crise. Isso aconteceu quando fiz 50. Meio século de existência pesa prá caramba.
Agora, aos 60, descobri que o melhor é relaxar e curtir.
Curtir o que?
Bem, coincidiu que no dia seguinte à minha estréia, vendi meu carro. Então, já pude começar curtindo um passeio de coletivo sem ter de pagar a passagem. Também não precisei enfrentar uma fila “kiilométrica” no banco.
Bem, se eu ainda tivesse carro, teria muitas vagas disponíveis para estacionar. Ah, também posso requerer aposentadoria. Quem sabe eu consiga continuar pagando meu plano de saúde ou até mesmo comprar um carro novo com o que vou receber do INSS.
Hum...que mais?.....................Ainda vou descobrir (se der tempo, lógico).
Tirando essas “felizes compensações” por estar envelhecendo, comecei a perceber em mim, sentimentos até então desconhecidos e a observar fatos que antes não me chamavam a atenção.
Descobri que não dá mais prá ter orgulho.
Orgulho é um dos pecados capitais e, claro, deve ser execrado. No entanto, tem um lado positivo quando se opõe à humilhação. Tudo tem dois lados (não me canso de repetir isso). Não confundir humilhação com humildade, tá. Confesso que o orgulho de ter e não aparentar os anos vividos, foi por água abaixo quando tive de provar minha idade para o motorista do ônibus. Devia ter sido o contrário mas não foi. Porque fica na gente a sensação de estar querendo se aproveitar, de estar mentindo.
E, enquanto viajava, sentada à janela, num banco reservado, olhando a paisagem, o que não era possível quando dirigia meu carro, pensei no tanto de tempo que já vivi e no pouco que me resta, considerando que tenha um final de vida natural. 
Só isso seria suficiente para me deprimir. Felizmente, o lado positivo do envelhecimento é que vem junto a maturidade trazendo uma compreensão inusitada dos nossos conteúdos internos. Não sei se vou conseguir me manter assim, pesando, medindo e ponderando meus sentimentos. Só o tempo dirá, porque sei que estou apenas no começo de uma nova jornada, não muito longa, é verdade, mas ainda assim, com novos e necessários aprendizados. Uma coisa boa que me ocorreu é que agora serei prioridade. Infelizmente essa descoberta boa não durou muito tempo porque, no banco tive de esperar minha vez. Isso me levou a observar que há uma legião de idosos, muito maior do que eu imaginava. E parece que todos estão realizando o sonho de serem “Office Boys” .
E aí, aconteceu uma coisa que, geralmente acontece quando alguém quer parar de fumar (prá todo canto que olha, tem alguém fumando)... todo lugar que eu olhava, tinha uma pessoa idosa... (ou mais).
Temos um ECA- Estatuto da Criança e do Adolescente.
Temos um EI – Estatuto do Idoso.
Penso que logo deverá ser criado um ENI – Estatuto dos Não Idosos.
A verdade é que tem mais gente estreando idade do que fazendo aniversário!
E viva a sapiência! 
Sonia Rocha - Mercuriana

10 maio, 2010

Adaptação ou transformação?




Alguém já disse que o Homem, depois do rato, é o ser mais adaptável que existe. Também já disseram que é o mais importante agente transformador de sua própria história. 
Duas afirmações que deveriam servir para nos orientar. No entanto, o que tenho observado é que a capacidade adaptativa vem sobrepujando o potencial transformador. Isso é muito grave e perigoso porque o resultado é uma aceitação passiva de tudo que não está bom e poderia ser modificado.
Tenho encontrado em meu caminho, muitas pessoas tristes, frustradas, reclamando baixinho para si mesmas, sem forças para buscar uma nova direção, um novo caminho que as leve para um viver mais satisfatório. Não conseguem mais sorrir, sentir prazer, ser felizes. A grande neurose é manter-se vivo, adaptar-se às condições impostas, de fora prá dentro, sem considerar a vontade de cada um.
Com isso, a sensibilidade, a espontaneidade e a criatividade se perderam. A perplexidade diante das misérias parece se esvair até desaparecer por completo. Criamos uma couraça, defesa que nos faz apáticos e, só aparentemente, inatingíveis.
O momento pede reflexão. Urgente.
A alegria, o sorriso, o gosto pela vida precisam voltar a fazer parte do nosso dia-a-dia. Ser feliz não é obrigação, é , antes de mais nada, um direito. E, entre tantos que nos são negados, é o que mais rápido precisa ser resgatado.
Basta de adaptações perniciosas que nos paralisam e nos tornam conformistas. É hora de lutar contra essa neurose. Ou vamos deixar de herança um mundo doente.
Isso não me parece uma perspectiva de vida, não acham?

Sonia Rocha – Mercuriana

22 abril, 2010

Breve história de um amor breve

Um dia, um raio de sol, quente, brilhante e gostoso, encontrou uma nuvem cinzenta, carregada e fria.
Quando se tocaram pela primeira vez, a nuvem resistiu. Assustada pediu ao vento que a levasse para longe. Porém, não esqueceu o calor daquele raio de sol atrevido.
O tempo passou mas o degelo havia começado.
A nuvem, que há muito vagava encobrindo o azul do céu, sentiu que chegava o momento da entrega. E, mais uma vez, nas asas do vento, foi ao encontro do raio de sol e se entregou completa, sem nenhum pudor.
E os dois, caíram sobre a terra, abraçados e apaixonados.
E no lugar onde caíram, espalhando vida e amor, nasceu um lindo arco-íris.

Sonia Rocha - Mercuriana

27 fevereiro, 2010

Um texto recebido...

Queridos (as),
faz algum tempo que recebi o texto que agora publico. Fui ao Google (salvador da pátria) para obter informações sobre a autora. Eu modifiquei a apresentação (layout), retirando as ilustrações. Aqui tem o texto lindamente ilustrado por Ziraldo. Vale a pena ver.
É provavel que já tenham lido, mas, repetir o que nos faz refletir, com humor gostoso, divertido, inteligente...nunca é demais, concordam?
Então aí vai...
de Marisa Prado

                 OLHA O OLHO DA MENINA
Menina crescia escutando que não adiantava mentir porque mãe sempre sabia
Mãe dizia que lia na testa da Menina, e que testa só Mãe sabia ler.
Menina tentava tapar a testa com a mão na hora de mentir.
Mãe achava graça. Muita graça. E continuava lendo assim mesmo.
Menina precisava entender como essa coisa misteriosa acontecia.
No espelho do banheiro, mentia muito em silêncio. E na testa, nada escrito!
Aí, Menina descobriu que Mãe também mentia. E que então não era testa
- era o olho, com um brilho diferente - que entregava a mentira.
Menina então tentava fechar o olho com força, para esconder a Mentira.
Mas nem isso resolvia, pois Mãe sempre adivinhava.
Menina tinha era que aprender a fingir de olho aberto que mentira era verdade.
Menina tentou, tentou...e aprendeu.
Era essa a solução.
Mas de noite Menina ficava apertada por dentro.
Assim meio sufocada, não podia nem piscar.
Com o olho muito aberto, não conseguia dormir.
Faltava ar pra Menina. Igual quando a gente fica quase sem respirar rindo de uma cosquinha.
Só que não tinha graça.
Menina - sem querer - tinha descoberto a Consciência,
uma coisa que toma conta da gente mesmo quando Mãe não está lendo testa, nem adivinhando olho.
Menina tinha aprendido que ter que fingir doía.
E que desse jeito ia ficar muito sem graça ser gente grande.
Menina desistiu de crescer.
Mas não adiantava.
Menina via que agora já estava quase da altura do móvel da sala da vovó.
E ficava muito triste, o aperto apertando mais.
E de tanto que o aperto apertava, Menina achou que fingir só podia doer tanto porque era dor sozinha.
Menina teve uma idéia, e ainda não sabia se era idéia brilhante.
Mas sabia - isso sim - que precisava testar, pra conseguir descobrir.
A idéia da Menina foi dizer para Mãe que era difícil fingir.
Menina achava ruim aprender montes de coisas sem dividir com ninguém.
Menina falou pra Mãe que era muito complicado e que não era nada bom ter que crescer sozinha.
Mãe abraçou muito apertado a Menina.
E no colo tão esperado Menina estava sendo mãe da Mãe.
Menina sentiu que Mãe estava chorando.
E que Mãe ainda não tinha aprendido tudo.
Mãe não falava nada
Mas uma e outra sabiam naquele abraço apertado que em Mãe também doía ser gente grande sozinha.
Nessa hora Menina entendeu tudinho.
Descobriu que só carinho é que espanta a solidão.
E que dor, se dividida, fica dor menos doída.
E que aí, dá até vontade de continuar a crescer pra descobrir o resto das coisas. 
Marisa Prado


Sonia Rocha - Mercuriana